A tecnologia deixou o dinheiro mais acessível, mas nem sempre tornou as decisões mais conscientes
Poucas mudanças transformaram tanto a vida financeira dos brasileiros nos últimos anos quanto o avanço das fintechs.
Bancos digitais, carteiras virtuais, aplicativos de investimento, plataformas de crédito, contas gratuitas, Pix, Open Finance, cartões sem anuidade, maquininhas, corretoras digitais, comparadores, empréstimos online e ferramentas automáticas de controle financeiro mudaram a forma como as pessoas recebem, gastam, transferem, parcelam, investem e acompanham o próprio dinheiro.
Antes, muitas decisões financeiras exigiam agência, fila, gerente, papelada, horário bancário e burocracia. Hoje, boa parte disso cabe em uma tela de celular.
Essa mudança trouxe benefícios importantes: mais conveniência, mais competição, mais acesso, mais transparência em alguns serviços e mais alternativas para quem antes tinha pouca relação com o sistema financeiro tradicional.
Mas também trouxe riscos.
Em resumo: as fintechs facilitaram o acesso ao crédito, ao consumo e aos investimentos. O problema é que acesso mais fácil não significa, automaticamente, decisão melhor.
Quando o dinheiro fica disponível em poucos cliques, o consumidor ganha velocidade. Mas também pode perder tempo de reflexão. Quando investir parece simples demais, o investidor pode subestimar riscos. Quando o crédito aparece personalizado na tela, a pessoa pode confundir oferta com oportunidade. Quando o consumo é integrado ao pagamento digital, gastar pode se tornar quase invisível.
O impacto das fintechs não está apenas na tecnologia.
Está no comportamento financeiro que essa tecnologia estimula.
O que são fintechs?
Fintechs são empresas que usam tecnologia para oferecer produtos e serviços financeiros de forma mais digital, ágil, personalizada ou eficiente.
O termo vem da combinação de financial technology, ou tecnologia financeira.
Na prática, fintechs podem atuar em áreas como:
- contas digitais;
- pagamentos;
- Pix e soluções de transferência;
- crédito pessoal;
- crédito para empresas;
- cartões;
- investimentos;
- seguros;
- controle financeiro;
- câmbio;
- Open Finance;
- antecipação de recebíveis;
- maquininhas;
- educação financeira;
- gestão de dados;
- prevenção a fraudes.
Nem toda empresa financeira digital é necessariamente uma fintech no sentido mais inovador do termo, e nem toda fintech substitui um banco. Muitas atuam em nichos específicos, outras se tornam instituições financeiras completas, e várias trabalham em parceria com bancos, varejistas, corretoras ou empresas de tecnologia.
O ponto central é que elas mudaram a experiência financeira.
O dinheiro deixou de ser algo administrado apenas por instituições tradicionais e passou a circular por ecossistemas digitais muito mais amplos.
O impacto das fintechs não começa no investimento; começa no acesso
Para entender o impacto das fintechs, é preciso começar pelo acesso.
Durante muito tempo, parte da população tinha relação limitada com bancos e investimentos. Abrir conta podia ser burocrático. Investir parecia distante. Comparar produtos era difícil. Conseguir crédito dependia de processos presenciais. Pequenos negócios enfrentavam barreiras para receber pagamentos eletrônicos.
As fintechs reduziram várias dessas fricções.
Hoje, uma pessoa pode abrir conta digital, receber Pix, pagar contas, contratar cartão, solicitar crédito, investir valores pequenos, acompanhar gastos e acessar produtos financeiros sem sair de casa.
O Banco Central acompanha estatísticas oficiais do Pix, sistema de pagamento instantâneo que se tornou parte do cotidiano financeiro brasileiro, com dados sobre transações, valores movimentados, usuários, chaves cadastradas e instituições participantes. Banco Central do Brasil — Pix em números
O Pix não é uma fintech, mas representa bem o ambiente em que fintechs cresceram: pagamentos instantâneos, digitalização, competição e novas formas de movimentar dinheiro.
Esse acesso ampliado é positivo.
Mas traz uma pergunta importante: quando tudo fica mais fácil, as pessoas passam a decidir melhor ou apenas decidem mais rápido?
Crédito digital: menos burocracia, mais tentação
Uma das áreas mais impactadas pelas fintechs é o crédito.
Antes, contratar crédito costumava envolver agência, conversa com gerente, análise demorada, documentos e uma sensação maior de formalidade. Hoje, muitos empréstimos, limites, parcelamentos e cartões aparecem dentro do aplicativo, com contratação rápida e linguagem simples.
Isso pode ser útil.
Crédito digital pode ajudar pessoas e pequenos negócios a resolverem necessidades reais, compararem alternativas, reduzirem burocracia e acessarem ofertas fora do modelo bancário tradicional.
O Banco Central, em estudo especial sobre fintechs de crédito e bancos digitais, aponta que esses modelos de negócio se baseiam em plataformas tecnológicas e canais digitais, com potencial para ampliar concorrência e alterar a oferta de serviços financeiros. Banco Central do Brasil — estudo especial sobre fintechs de crédito e bancos digitais
Mas o crédito fácil também pode estimular endividamento impulsivo.
Quando a contratação é rápida demais, a pessoa pode olhar apenas para o valor liberado ou para a parcela, ignorando custo total, juros, prazo, CET, impacto no orçamento e risco de dependência.
A tecnologia reduz atrito.
Só que, em crédito, algum atrito pode ser saudável.
Pensar antes de contratar, comparar condições, entender o custo e avaliar se a dívida resolve ou apenas adia o problema continua sendo essencial.
A diferença entre crédito útil e crédito conveniente
As fintechs tornaram o crédito mais conveniente.
Mas conveniência não é sinônimo de utilidade.
Crédito útil é aquele que tem finalidade clara, custo compreendido, impacto calculado e compatibilidade com a renda.
Crédito conveniente é aquele que aparece no momento em que a pessoa quer consumir, aliviar uma pressão ou resolver um aperto sem analisar consequências.
A diferença pode parecer sutil, mas muda tudo.
| Tipo de crédito | Característica principal | Risco |
|---|---|---|
| Crédito para reorganizar dívida cara | Pode reduzir custo financeiro | Precisa de plano para não recriar a dívida |
| Crédito para capital de giro bem calculado | Pode sustentar negócio | Depende de fluxo de caixa realista |
| Crédito para consumo impulsivo | Resolve desejo imediato | Pode comprometer renda futura |
| Crédito pré-aprovado em aplicativo | Fácil de contratar | Pode ser usado sem reflexão |
| Parcelamento recorrente | Dilui o impacto inicial | Pode criar acúmulo invisível |
| Limite alto de cartão | Aumenta poder de compra aparente | Pode virar extensão falsa da renda |
Na prática, o que se observa é que muitas pessoas não se endividam por falta total de informação. Elas se endividam porque o crédito fica disponível no exato momento em que a emoção está alta e a reflexão está baixa.
As fintechs podem ajudar a democratizar o crédito.
Mas o usuário precisa aprender a não tratar toda oferta como solução.
Consumo digital: quando pagar fica fácil demais
Outro impacto forte das fintechs está no consumo.
Pagamentos por aproximação, carteiras digitais, Pix, links de pagamento, compras dentro de aplicativos, parcelamento instantâneo e cartões virtuais reduziram o esforço de comprar.
Isso traz eficiência para consumidores e empresas.
Mas também muda a percepção do gasto.
Quando o pagamento fica rápido demais, a dor psicológica de gastar diminui. A pessoa não vê dinheiro saindo fisicamente. Não precisa digitar tantos dados. Não precisa enfrentar fila. Não precisa pensar muito. O consumo se integra ao cotidiano de forma quase invisível.
Esse fenômeno não é exclusivo das fintechs, mas elas fazem parte do ambiente que acelera essa experiência.
O problema aparece quando o consumidor perde a noção do conjunto.
Um delivery aqui, uma assinatura ali, um Pix pequeno, uma compra parcelada, uma renovação automática, um cartão digital, uma carteira com saldo. Tudo parece administrável isoladamente. No fim do mês, o orçamento mostra outra realidade.
O Banco Central explica que o orçamento pessoal ou familiar ajuda a conhecer melhor receitas e despesas, definir prioridades e identificar como o dinheiro está sendo usado. Banco Central do Brasil — orientação sobre orçamento pessoal ou familiar
Quanto mais digital e invisível o consumo fica, mais importante se torna acompanhar o orçamento com clareza.
A nova relação com o dinheiro: menos físico, mais comportamental
O dinheiro físico impunha limites visíveis.
A pessoa via as notas acabando. Havia um contato material com o gasto. Isso não impedia decisões ruins, mas criava percepção.
No ambiente digital, essa percepção muda.
O dinheiro vira saldo, limite, notificação, cashback, ponto, limite aprovado, saldo separado, investimento automático, crédito disponível, compra em um clique.
Esse novo formato pode ser mais organizado para quem tem método.
Mas pode ser mais perigoso para quem vive no impulso.
As fintechs criaram ferramentas que ajudam a controlar gastos, categorizar despesas e separar metas. Ao mesmo tempo, também criaram experiências mais fluidas de consumo e crédito.
A tecnologia é a mesma lógica: remover atrito.
A pergunta é: remover atrito de quê?
De uma decisão consciente ou de um impulso?
Fintechs e investimentos: a corretora entrou no bolso
As fintechs e plataformas digitais também mudaram profundamente o acesso aos investimentos.
Investir deixou de parecer algo restrito a grandes patrimônios, agências bancárias ou conversas com gerente. Hoje, o investidor pode abrir conta em corretora, consultar produtos, acompanhar carteira, aplicar valores menores, ler relatórios, comprar ativos e comparar alternativas diretamente pelo celular.
Isso ampliou o acesso.
Mas também trouxe novos desafios.
Quando investir fica fácil, o investidor pode acreditar que investir também ficou simples.
São coisas diferentes.
Acesso é a porta.
Conhecimento é o caminho.
A CVM mantém consultas públicas sobre fundos de investimento registrados, permitindo acesso a informações como cota, patrimônio líquido, número de cotistas, regulamento, lâmina, composição da carteira e outros dados relevantes. CVM — consulta a fundos de investimento registrados
Esse tipo de transparência é importante porque investimento digital não deve ser investimento sem leitura.
O investidor comum precisa entender que uma interface bonita não elimina risco, prazo, liquidez, custos, tributação, volatilidade e adequação ao perfil.
A gamificação dos investimentos
Algumas plataformas financeiras usam elementos de design que tornam a experiência mais envolvente: notificações, rankings, metas visuais, cores, gráficos, alertas, recompensas, telas simplificadas, comunicação informal e sensação de progresso.
Isso pode incentivar educação e constância.
Mas também pode estimular comportamento impulsivo.
Se investir começa a parecer jogo, o investidor pode acompanhar demais, mexer demais, comparar demais e confundir movimento com evolução.
O risco é maior quando a plataforma reduz complexidade visual sem reduzir complexidade real.
Um ativo continua tendo risco mesmo que o botão de compra seja simples.
Um investimento continua exigindo prazo mesmo que o aplicativo mostre rentabilidade em tempo real.
Uma carteira continua precisando de estratégia mesmo que a interface facilite a operação.
A CVM orienta investidores a considerarem risco, retorno, liquidez, perfil e objetivos antes de investir, além de alertar sobre cuidados para evitar problemas. CVM – Portal do Investidor — evitando problemas ao investir
A fintech pode facilitar a execução.
Mas a estratégia ainda pertence ao investidor.
Open Finance e o poder dos dados
O Open Finance é uma das mudanças mais importantes para o futuro das fintechs.
No Brasil, o Banco Central explica que o Open Finance permite o compartilhamento padronizado de dados, produtos e serviços financeiros, sempre mediante consentimento do cliente, com potencial para facilitar o gerenciamento financeiro e ampliar ofertas mais adequadas. Banco Central do Brasil — Open Finance
Para o consumidor, isso pode significar uma visão mais integrada da vida financeira.
Em vez de ter informações espalhadas em diferentes bancos, cartões, contas, corretoras e instituições, ferramentas podem consolidar dados e ajudar a comparar produtos.
Isso pode gerar benefícios:
- comparação de crédito;
- melhor visão de gastos;
- portabilidade mais inteligente;
- ofertas mais ajustadas ao perfil;
- controle financeiro mais integrado;
- competição entre instituições;
- redução de assimetria de informação.
Mas também cria um novo desafio: dados financeiros se tornam ainda mais valiosos.
Quem controla a interpretação dos dados pode influenciar decisões.
Por isso, o usuário precisa entender consentimento, privacidade, finalidade do uso dos dados e limites da personalização.
Open Finance pode aumentar poder de escolha.
Mas apenas se o consumidor souber usar esse poder com consciência.
Fintechs podem melhorar a educação financeira?
Podem, mas não automaticamente.
Muitas fintechs criaram conteúdos, simuladores, alertas, categorias de gastos, metas, relatórios, análises e explicações simples sobre produtos financeiros. Isso aproxima o usuário de temas que antes pareciam distantes.
Uma pessoa que nunca investiu pode começar entendendo liquidez. Quem nunca controlou orçamento pode visualizar gastos por categoria. Quem nunca comparou crédito pode ver diferentes condições. Quem nunca pensou em reserva pode receber alertas.
Isso é positivo.
Mas existe uma diferença entre educação financeira e marketing financeiro.
Educação ajuda a pessoa a tomar decisões melhores, inclusive quando a melhor decisão é não contratar nada.
Marketing conduz a pessoa para uma ação comercial.
Nem todo conteúdo de aplicativo é neutro. Às vezes, a ferramenta educa, mas também vende.
O consumidor precisa desenvolver senso crítico para perceber quando está aprendendo e quando está sendo conduzido.
A tecnologia pode ensinar.
Mas também pode convencer.
O impacto nos pequenos negócios
As fintechs também mudaram a relação de pequenos negócios com dinheiro.
Maquininhas, contas digitais PJ, Pix, links de pagamento, emissão de cobranças, antecipação de recebíveis, controle de caixa, crédito digital e plataformas de gestão facilitaram a rotina de muitos empreendedores.
Um pequeno comerciante pode receber pagamentos com mais facilidade. Um prestador de serviço pode cobrar por link. Um autônomo pode separar conta pessoal e profissional. Um negócio pode acompanhar fluxo de caixa pelo celular.
Isso pode melhorar eficiência.
Mas também pode trazer riscos.
Antecipação de recebíveis, crédito fácil, parcelamento para clientes, tarifas pouco compreendidas e mistura entre conta pessoal e conta da empresa podem gerar confusão.
Para o empreendedor, fintech boa não é apenas a que facilita venda.
É a que ajuda a enxergar o resultado real depois de taxas, prazos, antecipações, inadimplência e custos.
Receber mais rápido não significa lucrar mais.
Ter crédito disponível não significa que o negócio suporta a dívida.
A relação entre fintechs e inclusão financeira
Um dos argumentos mais fortes a favor das fintechs é a inclusão financeira.
Ao reduzir burocracia, custos e barreiras de acesso, elas podem aproximar mais pessoas do sistema financeiro formal.
Contas digitais, Pix, carteiras, microcrédito, pagamentos simplificados, maquininhas e investimentos de baixo valor podem incluir pessoas que antes estavam fora ou mal atendidas.
O Banco Central, no Relatório de Economia Bancária, acompanha temas como concentração, concorrência, crédito, rentabilidade e evolução do sistema financeiro, oferecendo um panorama importante sobre o ambiente em que bancos e fintechs atuam. Banco Central do Brasil — Relatório de Economia Bancária
Mais concorrência pode beneficiar consumidores.
Mas inclusão financeira não é apenas abrir conta.
Incluir de verdade é permitir que a pessoa use produtos financeiros de forma segura, compreensível e útil.
Uma pessoa incluída no sistema, mas endividada por crédito caro e consumo impulsivo, não está necessariamente mais protegida.
A inclusão precisa vir acompanhada de educação, transparência e proteção ao consumidor.
Segurança digital: a nova alfabetização financeira
Com a digitalização, segurança financeira passou a depender também de segurança digital.
Senhas, autenticação, golpes, phishing, engenharia social, links falsos, aplicativos fraudulentos, clonagem, contas invadidas e falsas centrais de atendimento fazem parte da vida financeira moderna.
Quanto mais serviços financeiros cabem no celular, mais importante é proteger o celular, os dados e os acessos.
A conveniência digital tem um preço: o usuário precisa aprender novos cuidados.
Alguns princípios são básicos:
- não compartilhar senhas;
- não enviar códigos por mensagem;
- desconfiar de urgência;
- verificar canais oficiais;
- ativar autenticação em duas etapas;
- limitar exposição de dados;
- revisar permissões de aplicativos;
- acompanhar movimentações;
- desconfiar de promessas de investimento;
- não clicar em links suspeitos.
As fintechs podem investir em segurança, mas o usuário continua sendo parte da defesa.
Educação financeira hoje também precisa ensinar higiene digital.
O risco de múltiplas contas e falsa organização
Ter várias contas digitais pode parecer organização.
Uma conta para gastos, outra para reserva, outra para investimentos, outra para cashback, outra para cartão, outra para o negócio.
Isso pode funcionar para quem tem método.
Mas pode gerar dispersão para quem não acompanha tudo.
O dinheiro fica espalhado. Gastos se multiplicam. Cartões se acumulam. Limites aumentam. Assinaturas ficam perdidas. Pequenos saldos são esquecidos. A visão geral se perde.
O problema não é ter várias fintechs.
O problema é não ter controle central.
A tecnologia facilita abrir portas. Mas alguém precisa saber o que existe atrás de cada uma.
Uma boa pergunta é:
as minhas contas digitais simplificam minha vida financeira ou espalham minha desorganização?
Fintechs, consumo e o efeito da recompensa imediata
Muitas fintechs também se conectam ao consumo por meio de cashback, pontos, descontos, parcelamentos, limites, cartões adicionais e ofertas dentro de aplicativos.
Essas ferramentas podem ser úteis.
Mas também podem estimular gastos desnecessários quando o consumidor passa a comprar para ganhar benefício.
Cashback só é vantagem quando a compra já fazia sentido.
Ponto só é benefício quando não induz consumo maior.
Desconto só economiza dinheiro se o gasto era necessário.
Parcelamento só ajuda quando cabe no orçamento e não compromete renda futura.
Na vida financeira real, o problema costuma surgir quando o consumidor confunde vantagem operacional com decisão inteligente.
Uma compra ruim com cashback continua sendo uma compra ruim.
Uma dívida cara em aplicativo bonito continua sendo dívida cara.
Um investimento inadequado em plataforma moderna continua sendo inadequado.
O investidor comum precisa separar ferramenta de estratégia
As fintechs são ferramentas.
Algumas excelentes. Outras limitadas. Algumas úteis para determinados perfis. Outras mais comerciais do que educativas.
Mas nenhuma ferramenta substitui estratégia.
Estratégia envolve:
- orçamento;
- reserva;
- objetivos;
- controle de dívidas;
- liquidez;
- perfil de risco;
- prazo;
- diversificação;
- proteção de dados;
- análise de custo;
- revisão periódica;
- comportamento financeiro.
A fintech pode acelerar, automatizar e facilitar.
Mas, sem estratégia, ela apenas torna mais rápidas as mesmas decisões ruins.
O investidor ou consumidor precisa perguntar:
- essa ferramenta me dá clareza ou me estimula a consumir?
- esse crédito resolve um problema ou cria outro?
- esse investimento combina com meu objetivo?
- esse aplicativo me organiza ou me dispersa?
- entendo os custos envolvidos?
- meus dados estão protegidos?
- estou decidindo ou apenas seguindo a interface?
A maturidade financeira está em usar tecnologia sem ser usado por ela.
Como usar fintechs com mais inteligência
Algumas práticas ajudam a transformar tecnologia financeira em aliada.
1. Centralize a visão da vida financeira
Mesmo usando várias contas, tenha um lugar onde você enxergue o todo: renda, gastos, dívidas, reserva, investimentos e objetivos.
2. Leia custo total antes de contratar crédito
Não olhe apenas parcela. Veja juros, CET, prazo, multas, seguros embutidos e impacto no orçamento.
3. Use alertas a seu favor
Alertas de gasto, vencimento e limite podem ajudar a reduzir surpresas.
4. Separe consumo de investimento
Não deixe a facilidade de investir levar dinheiro de emergência para produtos inadequados.
5. Desconfie de ofertas personalizadas demais
Personalização pode ajudar, mas também pode vender exatamente o que você está emocionalmente propenso a aceitar.
6. Proteja seus dados
Revise consentimentos, senhas, dispositivos e permissões.
7. Evite multiplicar cartões sem necessidade
Mais limite pode significar mais risco se não houver controle.
8. Compare instituições
A concorrência só beneficia o consumidor quando ele compara condições.
9. Revise investimentos fora da tela bonita
Leia documentos, entenda risco, prazo, liquidez e custos.
10. Use tecnologia para ganhar clareza, não para acelerar impulso
Essa talvez seja a regra principal.
O futuro da relação entre pessoas e dinheiro será híbrido
As fintechs não devem substituir completamente bancos tradicionais, consultores, instituições reguladas ou educação financeira formal. O mais provável é que o futuro seja híbrido.
Parte da vida financeira será automatizada. Parte será personalizada. Parte será feita por aplicativos. Parte seguirá dependendo de orientação humana, regulação, responsabilidade individual e análise cuidadosa.
A Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária acompanha anualmente o estágio da tecnologia bancária no Brasil e mostra como o uso intenso de tecnologia no setor busca gerar conveniência e segurança para clientes. FEBRABAN — Pesquisa de Tecnologia Bancária
A tendência é clara: a tecnologia financeira continuará avançando.
Mas a pergunta principal continuará sendo humana:
essa inovação está melhorando minha vida financeira ou apenas tornando mais fácil gastar, tomar crédito e operar investimentos sem pensar?
A resposta depende menos do aplicativo e mais da forma como a pessoa usa o aplicativo.
Quando a inovação precisa encontrar consciência
As fintechs mudaram a relação das pessoas com crédito, consumo e investimentos porque colocaram serviços financeiros no centro da rotina digital.
O crédito ficou mais rápido. O consumo ficou mais fluido. Os investimentos ficaram mais acessíveis. Os dados ficaram mais integrados. Os pagamentos ficaram instantâneos. A competição aumentou. A experiência melhorou.
Mas a facilidade também exige maturidade.
A mesma tecnologia que ajuda uma pessoa a se organizar pode levar outra a se endividar mais rápido. O mesmo aplicativo que democratiza investimentos pode estimular decisões impulsivas. O mesmo crédito digital que resolve uma emergência pode financiar um padrão de vida insustentável. O mesmo Open Finance que amplia poder de escolha pode expor dados se não houver cuidado.
Fintechs não são boas ou ruins por natureza.
Elas ampliam possibilidades.
E toda possibilidade exige critério.
No fim, a relação das pessoas com dinheiro não será melhor apenas porque ficou mais digital.
Será melhor se a tecnologia vier acompanhada de educação financeira, proteção de dados, consciência de consumo, gestão de risco e capacidade de dizer não quando a oferta parece fácil demais.
A verdadeira inovação financeira não é apenas fazer tudo em poucos cliques.
É ajudar o usuário a tomar decisões que continuem fazendo sentido depois que a tela apaga.
Perguntas frequentes sobre fintechs e finanças pessoais
O que são fintechs?
Fintechs são empresas que usam tecnologia para oferecer serviços financeiros, como contas digitais, pagamentos, crédito, cartões, investimentos, seguros, controle financeiro e soluções para empresas.
Como as fintechs mudaram o acesso ao crédito?
Elas tornaram o crédito mais digital, rápido e menos burocrático. Isso pode ampliar acesso e concorrência, mas também aumenta o risco de contratação impulsiva se o consumidor não avaliar juros, CET, prazo e impacto no orçamento.
Fintechs ajudam ou atrapalham o consumo?
Podem ajudar ao facilitar pagamentos, controle de gastos e organização financeira. Mas também podem estimular consumo impulsivo quando tornam compras, parcelamentos, limites e ofertas muito fáceis de acessar.
As fintechs facilitam investimentos?
Sim. Elas reduziram barreiras de acesso, permitiram aplicações por aplicativos e simplificaram a experiência. Mas investir continua exigindo análise de risco, prazo, liquidez, custos, perfil e objetivos.
Open Finance é a mesma coisa que fintech?
Não. Open Finance é uma infraestrutura regulada de compartilhamento de dados e serviços financeiros com consentimento do cliente. Fintechs podem usar esse ambiente para oferecer soluções mais personalizadas.
Quais cuidados devo ter ao usar fintechs?
Avalie custos, proteja dados, leia contratos, compare ofertas, acompanhe gastos, desconfie de promessas fáceis e não confunda facilidade de contratação com qualidade da decisão financeira.
Fontes consultadas
Banco Central do Brasil — Open Finance
Banco Central do Brasil — Pix em números
Banco Central do Brasil — Relatório de Economia Bancária
Banco Central do Brasil — estudo especial sobre fintechs de crédito e bancos digitais
Banco Central do Brasil — orientação sobre orçamento pessoal ou familiar
CVM — consulta a fundos de investimento registrados